Sonho

   A perspectiva da cidade fria, escura e silenciosa me despertou angustia, medo e calafrios. Já não mais enxergava o mar ao longe, e as torres baixas haviam se camuflado na neblina numa visão opaca e dispersa. A leve brisa que passava colava meu vestido ao corpo e afastava meus cabelos do rosto, gelada e densa. Cheguei a um ponto que já não mais aguentava a sensação do observar e a monotonia do momento. Dei leves passos para trás, como quem se despede de alguém amado ou de um lugar preferido, mas eu já nem gostava mais. Foi quando me virei e comecei a correr, mas tudo parecia estar em câmera lenta e o que já era sem cor ficou em total preto e branco. Parei e sentei na beira da cama onde ela dormia, respirando fundo e tranquilamente, como se nada estivesse acontecendo. Não percebia ela que estava tudo apodrecendo? Eu não quis ser a pessoa a desperta-la e alerta-la, parecia cruel demais. Observei-a por uns instantes até aquilo se tornar muito irreal. A brisa mais uma vez me perseguiu, entrando pela janela escancarada, ultrapassando as cortinas. Deitei-me ao lado dela, desejando que fosse tudo um sonho, à medida que tudo ia se desfazendo e os cenários mudavam de época. Em algum momento perdido na madrugada, em que minha mente já não se encontrava, ela pegou suavemente a minha mão e entrelaçou os dedos nos meus, num simples sinal de segurança, e que fez toda a diferença. Na manhã seguinte, eu fui acordada pelos fortes raios de sol, abri os olhos para o concretismo do presente e todas as cores tinham voltado ao lugar, mas ao virar para o lado me deparei com a ausência de alguém que já nem sei se existiu.

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