Unattainable
Estava sozinha em seu pequeno apartamento. Tocava uma musica melancólica
e ela revirou os olhos e bufou ao apagar mais um cigarro no cinzeiro atolado.
Ficava incomodada ao realizar o que estava lhe causando, imaginava seu corpo
por dentro e não conseguia lidar com a podridão que ela mesma trouxera para si.
Tinha tentado por tanto tempo não chegar/voltar a essa ponto, mas aqui estava
ela. Uma brisa gelada entrou pela varanda aberta e ela foi até lá fecha-la, deixando apenas uma brecha. Uma brecha. Uma brecha era só o que estava aberto
dentro dela mesma. Pouco saía e pouco entrava. Caminhou pela sala e passou pela
mesa cheia de escritos, projetos, rolos. Muitos pela metade. Coletou a caneca deixada no canto do balcão da cozinha e seguiu pelo
corredor, parou diante da única porta fechada. Era o quarto que ela chamava “quarto-porão”.
Abriu-o. Havia um armário, várias prateleiras, murais e um tapete no meio. O
tapete estava coberto de fotos e cartas que ela ficara vendo no dia anterior. O
armário continha roupas alheias e velhas. As prateleiras estavam com livros,
filmes e objetos significantes demais para estarem na sua visão diária. Deu uma
olhada no quarto mas não ousou entrar. Não queria repetir o acontecimento de
ontem. Era final da tarde e pela janela do quarto entrava um resquício dos últimos
raios do sol. Ela ficou parada ali tempo suficiente para estes iluminarem
algumas coisas, chagando a dar-lhes um certo ultimo brilho, até sumirem completamente
e mergulhar o quarto em plena escuridão. Nesse momento ela fechou a porta, seguiu para o seu quarto já escuro, e deitou-se na cama. Nem se perguntava
mais como havia chegado ali. Já tinha as respostas na ponta da língua, de tanto
que já voltara e revivera os erros, falhas e momentos felizes, se alimentando
desses últimos para soltar leves sorrisos. Não terminou o café já frio, depositou a caneca com conteúdo também inacabado em algum lugar e adormeceu do jeito que
estava. E permaneceu ali, intacta, por dias a fio. Não viu mais a luz do dia. Talvez se tornara uma
estátua, pois ficou fria e branca.